Há palavras cuja etimologia transmite com exatidão o seu significado e a forma como este é concretizado nas nossas vivências. Com origem no grego, stéreos > sólido, týpos > molde, estereótipo é a caracterização redutora de algo, alguém ou um grupo de pessoas – normalmente sobre representado – comummente aceite por hábitos de julgamento, desconhecimento ou superficialidade de análise. Capturam uma tendência, ajudam-nos a classificar o mundo à nossa volta e permitem-nos construir uma imagem do outro ensinando-nos a agir.
A nossa mente heurística está sempre à procura de padrões em tudo. Esta habilidade fez parte da nossa evolução enquanto seres humanos para que, numa primeira instância, o nosso instinto de sobrevivência agisse imediatamente face a um perigo eminentemente desconhecido.
Assente nas observações do dia-a-dia, de ideias intrínsecas que se desenvolvem a partir da nossa personalidade e consciência única e da influência do meio, seja este a família, amigos e ambiente no qual estamos inseridos física ou digitalmente, justificamos e legitimamos as relações de poder existentes numa sociedade.
O hábito de estereotipar tem em si uma carga negativa porque a seguir a ele, caso o conceito seja criado de forma errada ou parcial, forma-se o preconceito, que é um estereótipo negativo. Quando este conceito vem carregado de uma componente emocional e torna-se em discriminação, que é o preconceito em prática. Mas nem sempre um estereótipo está relacionado com algo depreciativo. A ideia de que os alentejanos são asseados ou de que os melhores cantores de jazz são negros são apenas dois destes exemplos.
A boa notícia é que os estereótipos sendo um produto da nossa mente, não são conceitos fixos e podem ser trabalhados desde que se proponha conhecer melhor o outro e ter a consciência de que ao fazer isto está também a conhecer a si próprio. É fácil classificarmo-nos uns aos outros através de meros grupos de pertença: o imigrante brasileiro, o retornado angolano, a loura com corpo definido, o tatuado com a camisola do clube, a miúda com um véu no cabelo e o miúdo de óculos e olhos rasgados. Mas se questionarmos sobre quem destes gosta de um bom bife, prefere férias no campo, teve um desgosto amoroso ou tem filhos, veremos que a realidade de cada um de nós é tão plural que se torna impossível não pararmos para refletir. Mesmo diante da diversidade, a nossa condição humana pode sim ser o nosso fator de agregação.
Refletir criticamente sobre termos que estão arraigados no nosso discurso é outra das formas de dirimir a construção de falsos estereótipos. Por exemplo: afirmar que todos os idosos têm manias, a maioria dos idosos tem manias e alguns idosos têm manias tem o mesmo significado? E cada uma destas frases é em si uma verdade? Com certeza que quando se começa a pensar nelas, lembramos de pessoas de idade que conhecemos e é desta reflexão que nasce a desconstrução de uma ideia muitas vezes malformada ou particularizada.
A forma como nos comunicamos e interagimos em sociedade é o reflexo da nossa forma de estarmos no mundo. Repensar situações que nos levaram à construção de um estereótipo negativo e estabelecermos o distanciamento entre a situação ou pessoa e a sua representação num grupo maior é um exercício essencial para que não sejamos nós mesmas vítimas do preconceito alheio.
O respeito, a compreensão e a empatia devem ser os valores a colocar em prática quando entramos em contato com o desconhecido. Há mais coisas em comum entre todos nós do que um mero e superficial contato pode supor.