Acabei por abrir o Cabernet Sauvignon. Sempre era só essa casta; o Merlot não estava ali embutido. Cheirei a parte húmida da rolha como fazias, como farias se naquela noite tivéssemos usado as minhas únicas duas taças.
Mesmo aqueles copos te aguardavam, como eu a lhes esperar cheios. Depois de nos aquecermos, pegaríamos neles e brindaríamos a que?
A noite tortuosa que se tornou um bálsamo. Ao palato fino que reconhece a nossa uva preferida. Aos dias que dali poderão se seguir. A sala ampla por onde entra luz natural e tem espaço para o nosso piano. Aos animais que se tornam amigos. Aos animais que já não precisam dormir sozinhos. Aos amantes que mutuamente se atraem porque há uma química tácita na ineroxabilidade do amor. Quantas vezes te fartaste de ouvir isso?
Menos do que aquelas que aspirei o teu casaco quando o descobri esquecido. O tabaco, o perfume e o calor que ali continha.
Pendurei o num cabide no meu armário.
Assim, vinho, roupa e mulher esperam um dia poder de novo te envolver.