Foi num encontro fortuito no talho, entre pedidos de carcaças de frango e ossos para os cães, que relembrei de Clarice. Houve aqueles anos negros da minha vida nos quais a sensibilidade crua da sua escrita era a única coisa que eu conseguia digerir. Todo o resto ficava barrado nas frestas de um coração estilhaçado. Sentada na cama, “Perto do Coração Selvagem” a cheirar a prateleira de biblioteca e a capa encarnada a se desfazer. Não foi uma epifania mas a perspicácia que Joana provocou em mim:

o que acontece depois que se é feliz?

Há inúmeras razões para se admirar Clarice Lispector. A minha preferida é a forma como ela fala do indizível, como consegue colocar no papel o que nem sabíamos que existia. Sempre tive a vontade de fazer com que a forma e o conteúdo do meu pensamento pudessem automaticamente passar para o papel. No banho, quando a rede neural está mais ativada ou nos milissegundos antes que uma sinapse interrompa o que estava a elaborar.

Não por vaidade, não por desabafo, e sim, tão somente, porque aquele conjunto de ideias atravessados por sentimentos e memórias urgem por ganhar vida própria. Dar à luz parece ser algo intimamente ligado à função materna.

Quando vejo amigos ou pessoas que me inspiram a tomarem conta das suas obras, a falarem de Ursula Le Guin a Frank Zappa como quem pede um café, pergunto-me inevitavelmente no meu lugar na história e como o tenho usado e interpretado. Como tenho dado importância a isto ou àquilo e todo o espaço mental que aquela função abarca. E todo o aprendizado que aguardou mal comportado, sentado num banco, agora apenas querer saber se chegou a sua hora. Igual aquela menina expulsa da aula de geografia no 6º. ano por encarar a professora. Sempre foi a hora de se dizer o que se pensa. Como ensinado aos meninos: com respeito, diz o que pensa e não tragas ressentimentos para casa.

Clarice ajudou-me a lembrar que estes anseios só se transformam quando lhes damos asas através de papel, caneta ou um teclado e vontade. Sobretudo vontade. Dia a dia, fabricar uma pena e colá-la ao corpo. Levantar voo porque o chão já deixou de servir. Se não agora, quando?

O Rafa disse-me que a expressão minha que ele mais gosta é “bater com a cara no chão”. Não há o momento nem o local certo à espera que alguém sente-se e crie, escreva, leia ou interprete. É na forja do cotidiano. Da loiça suja, da tese e das mensagens de Whatsapp. Dos memes e reels, dos stories e das idas ao Monsanto. Não dar desculpas à si mesmo é o melhor exercício para se combater a covardia de não encarar os seus desejos.

A pele já está cicatrizada e a cara lavada.

O quando é agora.