Deixar a loiça por lavar
É verdade: pratos e talheres não são maduros o suficiente como uma criança de 7 anos para tomarem banho e enxugarem-se sozinhos. Quem diria…Deixar uma pilha de chávenas por baixo do tacho do arroz até a altura em que a água da torneira torna todo aquele caldo rançoso de arroz azedo e o sangue de galinha de cabidela de 3 dias sob o sol, não vai, surpreendentemente, fazer com que consigas buscar de dentro da pia o único prato menos sujo sem ter náuseas de vómito. Mas, sabes muito: a fossa rançosa de indecisão tem um fim no momento em que alguém faz o serviço que a tua procrastinação sempre quis.
Correspondência semi-aberta
Nada como ver o logótipo das Finanças ao lado do teu nome para te dar uma pontada de ansiedade. Ou um envelope do banco com a tua morada, porque essas entidades não têm mais nada para fazer além de perturbar as reminiscências da tua sanidade. Por que essa gente não te deixa em paz? Será porque não atendes as chamadas de números que não tinhas salvo? Ou simplesmente só excluíste os teus amigos chegados da lista de spam? Adiar a identificação dos problemas é um passatempo reconfortante, quase um hobby. Além disso, se não abrires a conta do gás, será que aquele débito existe de facto? Melhor deixar o papel acumular-se, ser um bom cidadão, e deitar tudo no ecoponto azul ao fim de dois anos.
Armários abertos
E se? E se abrir uma porta fechar todas as possibilidades do que aquela Pringles possa te proporcionar? E se abrires a gaveta e deixa-la só encostada para os talheres que saíram da fossa possam ser melhor arejados? Precisavas de ter tirado filosofia para encarar estes verdadeiros dilemas existenciais. Feito de um misto de coragem e superstição, segues a par e passo o manual do bravo guerreiro até que o seu crânio parta-se em dois numa quina de aglomerado e fórmica branca.
Ninguém fica para trás
Para ti, bolachas foram feitas para estarem unidas desde um pacote àquele que devolverás futuramente à natureza. A verdade é que és uma alma generosa e vês aquela mistura de farinha, açúcar, chocolate e 3/4 de conservantes como pequenos seres que devem manter-se unidos. Nada disso será conseguido sem que um rastro de migalhas se espalhe pela bancada, sofá e tapete. Um verdadeiro Hansel e Gretel moderno. Afinal, também gostas de levar as tuas amigas recheadas para um tour pela casa antes de transformá-las em história.
Sobras no frigorífico
Tens uma veia colecionadora que te impede de deitar para o lixo aquele alho podre, já feito em pó verde. O molho de tomate, aberto no verão de 1992 quando decidiste fazer uma bolonhesa para os teus ex sogros também já se transformou num viveiro de vermes que neste momento estão a usar o teu acesso da Netflix de tão confortáveis que lá estão. Sobre aquele hummus biológico com uma capa branca por cima, esqueça. Ninguém vai querer experimentar o prato de fusão que queres fazer com ele e o alho.