É o meu nome. Esse enigma encantador. Quase como um código secreto que só eu decifro, ou melhor, tento decifrar para os outros, porque a cada vez que o pronuncio, é como se abrisse uma porta para um universo paralelo onde as pessoas não sabem ouvir. “Lís,” digo eu, já antecipando o olhar de confusão que segue, como se fossem sinais bêbados de código Morse. E lá vamos nós…

Claro, poder-sei-ia pensar que, com um nome tão curto, as coisas seriam simples. Mas a vida é uma tragicomédia, não é verdade? Quanto mais as pessoas tropeçam nele, mais me apego a essas três letrinhas, monossílabo tónico delicado, proeza da antroponímia. Foi mamãe que mo deu (sim, chamo mamãe como Proust a dele). Um presente maior que a vida, porque enquanto o corpo se vai, o nome permanece.

Quem diria que 21 anos depois de ter ouvido pela primeira vez no pátio da escola esta sonoridade que mais lembra um beijo repenicado, ela teria pensado: “É isso. Isso vai confundir muita gente no futuro.” Tsc…mamãe é uma brincalhona…

Na infância, eu era caçada pelas Carolinas, Joanas e Manuéis da vida, e até hoje, a conversa segue o mesmo roteiro entre os adultos. Primeiro vem a pergunta, “Como é que te chamas?” E eu, ainda inocente, respondo: “Lís”. A partir daí, é uma montanha-russa de suposições: “Alice?”, “Elis como a cantora?”, “Ah…Élis!, “Elisabete?”. Não, meus caros, é apenas Lís. Como a cidade, mas sem a parte turística. Só Lís.

Quando vim para Lisboa achava que isto iria acabar. Mas não. O S em Portugal tem a ginga de uma passista de escola de samba carioca descendo a Garret e acrescentando swing e letras onde não existe. Pronunciar o s com som de…s ou sh dá no mesmo. Dizer “chamo-me ´Lish´” ou “o meu nome é (micro pausa) ´Lish´”…é piners, como diria o outro.
O pior é que Lis é omnipresente em Lisboa! Lis é o código IATA de Lisboa. As pessoas vêm de Orly para…para LIS. Sem Hs, Ys, Ws ou outras letras que fazem um nome parecer um sunset consonantal como Blaszczykowski.

Quanto à sua origem, parece ser uma declinação da antiga fleur-de-lis (isso…faz o biquinho) que fez uma transição botânica para o atual lírio. A fleur sempre foi associada à pureza e nobreza da Nossa Senhora, posteriormente adotada por Clóvis, primeiro rei cristão dos francos que a recebeu no seu batismo. Na idade média, a heráldica desenvolveu-se e as famílias nobres passaram a usá-la para diferenciar-se de plebeus como eu. Posteriormente o uso foi ganhando popularidade nos contextos militares representando lealdade, autoridade e proteção territorial. Após este passado glorioso, a flor-de-lis conheceu a decadência ao se tornar símbolo dos escuteiros e ícone da minha vida nada aristocrática.

Entretanto, neste fim de semana, um amigo pediu uma sobremesa de sua graça “brisa de lis de pistachio” e pude sentir novamente o vento do orgulho a roçar o meu espírito com a seguinte descrição: “muitas texturas e sabores, ao mesmo tempo intenso e frutado, leve e aconchegante.”
Parece fazer jus à complexidade das coisas simples, como um nome.

Ou uma pessoa.