O ano é 2025. Faz hoje 80 anos que Auschwitz foi libertado, desde que as portas do inferno se abriram para revelar ao mundo o horror que nunca deveria ter existido. “Never forget, never again”, diziam os vitoriosos da Segunda Guerra Mundial. E por um breve momento, acreditámos que as Nações Unidas poderiam ser essa garantia. Mas a história é um mestre cruel, ensinando lições que poucos desejam aprender.
1991. Saddam Hussein tinha acabado de ser expulso do Kuwait. Os curdos, encorajados pela promessa implícita de proteção ocidental, rebelaram-se. E o que fizeram os Estados Unidos? Autorizaram o regime iraquiano a usar helicópteros para esmagá-los. Assim, os curdos se tornaram – mais uma vez – a maior nação sem território. A promessa de “never again” desmoronava-se com o vento, como poeira em um campo desértico.
Na Bósnia, o mundo “livre” assistia, impotente ou apático, ao cerco de Sarajevo e ao massacre de Sbrenica. Mais de 8 mil muçulmanos bósnios executados em poucos dias – um genocídio em plena Europa. Os europeus hesitaram. Não era do seu interesse intervir, afinal, as vítimas eram muçulmanos. Em Kosovo, o mesmo nacionalismo grotesco e primitivo inflamado por Slobodan Milošević levaria a massacres, deslocamentos forçados e um apelo desesperado por ajuda internacional. A NATO, ao menos, agiu. Mas a mancha do fracasso em prevenir Sbrenica nunca se apagaria.
E depois veio o Sudão. Darfur. Um conflito que os manuais da ONU classificariam como genocídio, mas que os governantes do mundo se recusavam a chamar pelo nome. Milhares de mortos, milhões de deslocados. O silêncio dos que prometiam proteger era ensurdecedor. A Líbia e a Primavera Árabe tornaram-se lições sobre o que acontece quando uma intervenção militar não vem acompanhada de um plano para a paz.
Na Síria, a tragédia atingiu proporções quase mitológicas em sua crueldade. Bashar al-Assad cruzou todas as linhas imagináveis, incluindo a linha vermelha traçada por Barack Obama. Gás sarin em Ghouta. Imagens de crianças sufocando, de corpos empilhados em fileiras grotescas. Obama hesitou. Putin não. A Rússia interveio, transformando Alepo em um mausoléu de pedras e cinzas. A cidade, outrora uma das mais belas e prósperas do Oriente Médio, tornou-se símbolo da falência coletiva.
E então chegamos a Gaza, onde a hipocrisia atinge o ápice. Enquanto o mundo debate se o Hamas é um sintoma ou uma causa, as bombas continuam a cair. É cómodo para Israel culpar os palestinianos pelo seu próprio destino – afinal, foram eles que votaram no Hamas, dizem. Mas pouco se fala sobre como a divisão interna palestiniana foi habilmente manipulada pelo próprio Netanyahu.
A lista continua: Myanmar, Iêmen, Ucrânia. Sempre a mesma ladainha de condenações vãs, de promessas vazias. O Conselho de Segurança da ONU está preso nas garras do veto, uma relíquia de 1945 que impede qualquer avanço significativo.
A verdade é que “never forget, never again” é uma promessa que ninguém tem coragem de sustentar. Não esquecemos, mas permitimos que aconteça de novo, e de novo, e de novo. A tecnologia avança, os métodos de destruição tornam-se mais eficientes, mas o ódio permanece tão primitivo quanto sempre foi. Como um professor uma vez me disse, talvez a única coisa capaz de unir a humanidade seja uma invasão alienígena. Apenas quando confrontados com algo que não é humano reconheceríamos todos como humanos.
O progresso moral é uma piada cruel. E enquanto continuarmos a olhar para os nossos semelhantes como seres de outro planeta, estaremos condenados a repetir os mesmos horrores. Auschwitz foi libertado há 80 anos. Mas o inferno – o inferno somos nós.