CASA DO JARDIM DA ESTRELA

Publicado na edição de Abril 2025 da Revista Brotéria | Vol 200-4

Até 20 de março, na Casa do Jardim da Estrela, o passado se desdobrou em camadas: o que era familiar tornou-se desconcertante; o que era estranho, talvez nunca o tenha sido assim. Em Exotismos – repensar o passado próximo, Vasco Araújo operou como um arqueólogo da perceção, escavando narrativas que moldam o modo como olhamos para o que chamamos de exótico. Inserida na exposição, encontra-se também a série “É por isso que me lembrei do passado, por ter medo do futuro…” num registo mais íntimo, mas não menos político: a do poder dissimulado na domesticidade, nas relações interpessoais, naquilo que se diz e, sobretudo, no que se silencia.

Ao percorrer a exposição, percebe-se que o artista lisboeta trabalha com materiais como madeira, vidro, som, plástico com o intuito de manipular camadas de tempo e expetativa. Em Exotismos, as esculturas sonoras – côcos, flores de plástico, mesas de madeira e pretensos ovos de avestruz – ecoam gravações de vozes. Não se trata, contudo, de um exotismo ingénuo, daqueles em que a fruta tropical e as cores saturadas enchem brochuras turísticas. Aqui, o exotismo é problemático, para quem olha para estes símbolos tropicais a partir de um olhar filtrado por aceções coloniais, afetadas, longe da realidade do objeto. A bananeira de plástico e as línguas estrangeiras em MP3 revelam um entusiasmo forçado que parece empurrar os objetos para uma artificialidade crua. Se somos inicialmente seduzidos por um conforto estético, as vozes somadas ao nosso olhar encaminham-nos para um novo enredo, um novo entendimento onde tudo se move segundo um guião maior – um que conhecemos, mas que raramente questionamos. Vemo-nos confrontados com a nossa aceção do exótico, do outro. E, com alguma sorte, com nós próprios.

Vasco Araújo já nos habituou ao seu trabalho polimórfico, movendo-se entre vídeo, escultura, instalação e performance. Mas o seu eixo é sempre o mesmo: como é que o poder se inscreve no discurso e na memória coletiva? A pergunta desdobra-se tanto na sua leitura das narrativas coloniais, como na reflexão sobre a linguagem e a identidade. Em “É por isso que me lembrei do passado, por ter medo do futuro…”, a casa, espaço de segurança e intimidade, surge como um palco onde as hierarquias operam de forma silenciosa. As esculturas de madeira, vidro e plantas artificiais sugerem um lar, mas algo na sua disposição diz que esta casa não é só uma casa: talvez seja um tribunal onde o passado se senta para ser julgado, ou um palco onde os papéis já foram distribuídos e onde o público, sem perceber, já entrou em cena.

No final da visita, fica a sensação de que o exotismo, enquanto conceito, é um espelho que reflete mais sobre quem olha do que sobre aquilo que está a ser olhado. E que o passado, esse lugar onde tantas certezas foram fincadas, talvez nunca tenha sido tão sólido quanto julgávamos. Vasco Araújo desmonta cenários e oferece-nos o desconforto necessário para repensá-los. De facto, se a arte tem um papel, talvez seja este: devolver-nos a responsabilidade de ver.