Publicado na edição de Janeiro 2025 da Revista Brotéria | Vol 200-1
157 PÁGS., Tinta da China | MAAT, 2024 (17,91 €)
Comemorando os cinquenta anos da Revolução dos Cravos, Hoje Soube-me a Pouco: introversões e utopias artísticas no pós-25 de Abril expande a exposição homónima apresentada entre abril e agosto deste ano, no MAAT, em Lisboa. Longe de oferecer uma narrativa coesa ou uma visão definitiva das mudanças culturais em Portugal, a obra privilegia uma abordagem fragmentada e intimista. Através de ensaios de investigadores de várias gerações e áreas, o volume revisita, de forma evocativa, momentos-chave das últimas cinco décadas no país. Filosofia, literatura, artes visuais, moda, arquitetura, feminismo e ecologia entrelaçam-se ao longo das páginas, cada tema explorado a partir de detalhes específicos — uma imagem, um objeto, uma ideia ou um acontecimento que capturam as tensões e mudanças de uma sociedade em transformação.
Afonso Dias Ramos – investigador do Instituto de História da Arte (NOVA FCSH/IN2PAST) e editor da Revista de História da Arte – coordena este volume. Na introdução, sublinha que «cada uma destas entradas, como gestos soltos, procura contrariar a lógica do resumo ou da recapitulação comemorativa que têm saturado as estantes.» A leitura dos oito ensaios é assim uma viagem aberta, enriquecida por imagens que adornam os textos e dão vislumbres das obras expostas.
O livro é uma surpresa para quem deseja revisitar a efervescência cultural que se seguiu ao 25 de Abril, revelando ou relembrando episódios que despertam o interesse e capturam o olhar, como no ensaio de Pedro Levi Bismarck, que descreve «rotunda, shopping e marquise» como «pequenas mitologias da democracia.» [113]
Inspirado pela canção de Sérgio Godinho, Hoje Soube-me a Pouco carrega o maravilhamento de um tempo de esperança, imprimindo-se como um convite ao pensamento sobre as trajetórias percorridas e as utopias que ainda hoje resistem