BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL
Publicado na edição de Março 2025 da Revista Brotéria | Vol 200-3
No Reino de O’Neill é uma exposição cujo percurso, não pretende ser uma antologia definitiva, mas antes, um convite à errância pelo universo particular do autor.
Estruturada em seis núcleos temáticos, acompanha diferentes fases da vida e obra de O’Neill, desde as primeiras intuições poéticas até à sua morte. O primeiro núcleo, Na Rua da Alegria, remete para o espaço onde o poeta cresceu e teve, segundo ele próprio, as primeiras revelações de tristeza: «os operários, demolidos pelo cansaço, subiam a rua com lancheiras na mão», diria ele num texto de 1959. Essa consciência precoce do desgaste quotidiano e do destino dos homens comuns moldaria a sua poesia, onde o desencanto raramente deixava de andar de mãos dadas com a ironia. Neste espaço, objetos e fotografias emprestadas pela família permitem um vislumbre mais íntimo da infância do poeta.
O segundo núcleo, Na Rua André Breton, situa-se no final da década de 1940, quando O’Neill e Mário Cesariny,«desavindos com a vidinha», mergulham no surrealismo como forma de libertação face à rigidez cultural e política da época. Sob o signo de Nora Mitrani, este núcleo ilustra o entusiasmo e o desencanto do poeta com o movimento. O’Neill nunca foi um surrealista ortodoxo; a sua relação com o grupo oscilou entre a adesão e a desconfiança. Os manuscritos expostos mostram esse trânsito, revelando um poeta que, ao longo da vida, nunca se deixou fixar num único território poético.
Segue-se No Tempo de Fantasmas, centrado nos anos 50, época em que O’Neill descobre que é um poeta com incisivos, antecipa dois traços fundamentais do seu autorretrato: a mordacidade e o cepticismo risonho. É também o período em que se afasta do que chama «poética poesia» e decide expurgar os versos de qualquer artifício vazio. Como bem lembra a exposição, O’Neill era avesso a maneirismos e sempre desconfiou dos «cabeleireiros das palavras» e dos «pirotécnicos do estupor», preferindo um tom mais direto, onde a inteligência crítica e a ternura amarga convivem numa delicada tensão.
A década de 1960, tratada em Na Feira Cabisbaixa, é uma das mais prolíficas do poeta. Publica quatro livros de poesia, organiza antologias, traduz, escreve para cinema e grava dois discos em que lê os seus próprios poemas. Parte desta produção pode ser vista em quatro ilhas temáticas que iluminam aspetos paralelos da obra do poeta: dedicada às suas amizades literárias, às suas traduções, edições e prefácios, e uma última aos seus projetos em forma de assim, onde se encontram iniciativas inesperadas, como uma ópera rock. Apesar desse fervilhar criativo, o país continuava a parecer-lhe pequeno e provinciano. No seu olhar mordaz, Portugal era um «país relativo», onde o melhor que havia era «a aletria da sua tia». A exposição recupera esta ironia e recorda que O’Neill, apesar de se divertir com as suas próprias hipérboles, nunca deixou de escrever a partir de um profundo fascínio pela língua portuguesa e pelas suas possibilidades. A sua poesia não era um lamento, mas uma forma de resistência lúdica à pequenez do mundo.
Nos Anos 70, vemos um momento de balanço e revisão. O’Neill, já reconhecido, volta-se para o quotidiano e para a fotografia, um «certo ver» que também era uma forma de escrita. O programa televisivo Museu Aberto, onde participa, dá-lhe espaço para refletir sobre a arte e o seu papel no mundo. A exposição sublinha essa vertente visual da sua produção, trazendo imagens que revelam um olhar atento às geometrias inesperadas da cidade e às cenas banais que guardam uma espécie de absurdo poético.
O último núcleo, No Vale Derradeiro, acompanha os anos 80, a fase final da vida de O’Neill. Em 1982, publica Poesias Completas 1951–1981, recebe um prémio literário e encara com lucidez o peso da passagem do tempo, embora achasse que «a vida era para se experimentar, para gozar até ao último gole».Morreu em 1986, deixando uma obra vasta, inquieta, que resiste a qualquer tentativa de enquadramento definitivo. O epitáfio que escrevera aos 30 anos revela um humor que nem a morte conseguiu domesticar: «Aqui jaz Alexandre O’Neill, um homem que dormiu pouco, muito pouco. Bem merecia isto.»
A exposição No Reino de O’Neill, comissariada por Joana Meirim, é um convite a revisitar um dos poetas mais singulares da literatura portuguesa. Consegue equilibrar bem o rigor documental com um tom que não perde de vista a irreverência do autor. O’Neill não foi um poeta de efemérides nem de solenidades, e esta mostra tem o mérito de não o transformar numa figura de museu. Ele próprio desconfiaria de um tributo demasiado sério.
Talvez, ao ver-se agora transformado em tema de exposição, murmurasse, com aquele riso trocista: Mas assustem-me. Voltei para trás! Quadrícula cidadã, tu é que és segura!