Publicado na edição de Novembro 2024 da Revista Brotéria | Vol 199-5
A exposição «O Mundo Inteiro é um Palco», dedicada a William Klein no MAAT, é uma celebração do caos controlado que permeia a obra de um dos mais audaciosos artistas do século XX. Klein, nascido no Harlem em 1926, foi um transgressor nato. Nunca satisfeito com as convenções, tanto da fotografia quanto do cinema, ele moldou um estilo inconfundível, que transformou a desordem em arte e a imperfeição em virtude. Esta retrospetiva, com curadoria de David Campany, revela Klein em toda a sua complexidade – fotógrafo, cineasta, pintor, e designer gráfico – apresentando uma obra que vibra de energia, ousadia e improviso.
Logo na entrada, o visitante é confrontado por um mural de Qui êtes-vous, Polly Maggoo? (1966), uma sátira mordaz à moda, género que Klein conhecia profundamente. Fruto de uma família judia pobre e veterano da Segunda Guerra Mundial, Klein encontrou em Paris o solo fértil para desenvolver a sua arte. Estudou pintura com Fernand Léger, tendo a formação modernista se refletido na sua fotografia de moda, onde preferia o grão visível e as composições abruptas à elegância polida dos seus contemporâneos.
Klein rejeitou as estéticas límpidas de Cartier-Bresson ou Robert Frank. Preferiu a cacofonia das ruas de Nova Iorque, Roma, Moscovo, Tóquio e Paris. Essas cidades, que entre 1956 e 2002 funcionaram como os seus estúdios, revelaram-se nas suas lentes como lugares de uma brutal vitalidade, capturados em ângulos dramáticos e enquadramentos ousados. As suas fotografias transpiram uma energia quase descontrolada, como na famosa imagem de um menino a apontar uma arma para a câmara enquanto outro observa em silêncio. Para Klein, esta imagem, um “autorretrato”, encarnava o seu espírito: simultaneamente violento e angelical.
A exposição, sabiamente desorganizada do ponto de vista cronológico, permite ao visitante mergulhar em temas que atravessam décadas da carreira de Klein. Em «Olhar para Trás», de 1954–1955, vemos o artista a vaguear por cidades da América, Europa e Ásia, transformando encontros fugazes em imagens icónicas. Em 1961, Klein visitou Tóquio, sem falar japonês, mas a sua capacidade de se conectar com estranhos traduziu-se em mais de 600 fotografias, capturadas num frenesim de dois dias, que expressam o dinamismo inigualável da cidade.
No cinema, Klein continuou a sua exploração da sociedade contemporânea com humor ácido e crítica social mordaz. E nesta exposição, será possível ver excertos de algumas das suas 33 obras entre escrita e realização. Em Mister Freedom (1968), Serge Gainsbourg satiriza o imperialismo americano com a irreverência que apenas Klein poderia orquestrar. Já em Le Couple Témoin (1977), profetiza, com um toque de ironia, a era dos reality shows. Klein navegava entre géneros e suportes com a mesma facilidade com que movia a sua câmara, criando obras cinematográficas que, assim como as suas fotografias, são caos cuidadosamente orquestrado.
A secção “Gestos Materiais” revela o lado pintor de Klein, onde a abstração e o modernismo, aprendidos com Léger, encontram paralelos diretos com a sua fotografia. As suas pinturas, de geometria precisa e cores vibrantes, evocam a mesma sensação de movimento constante, e é interessante ver como, em cada um dos meios, Klein manteve uma coerência de gestos e intenções.
A exposição culmina com uma série de fotografias de grupo, intitulada “Juntos”. Modelos da Vogue, adeptos nas bancadas de Moscovo ou uma família italiana dos anos 1950 são captados em momentos de autenticidade espontânea. Klein observava, dentro e fora dos seus enquadramentos, as dinâmicas humanas com uma curiosidade que nunca o abandonou. São estas dinâmicas que conferem à sua obra uma qualidade atemporal, que transcende o mero registo fotográfico.
Com O Mundo Inteiro É Um Palco, o título emprestado a Shakespeare, revela-se uma metáfora perfeita para a vida e obra de Klein. Ele compreendia o mundo como um teatro onde os atores – as pessoas comuns, os ícones da moda, os pugilistas ou os revolucionários – representam o seu papel num cenário de caos e beleza. Klein mostrou que a arte não reside na perfeição, mas na captura sincera da imperfeição, onde a verdade se esconde entre os borrões e os grãos de cada imagem.