GALERIA ZÉ DOS BOIS
Publicado na edição de Fevereiro 2025 da Revista Brotéria | Vol 200-2
Literalmente, singsong refere-se a um tipo de canto ou fala ritmada, com uma entonação alternada que pode soar monótona ou melodiosa, dependendo do contexto. É frequentemente associado a uma espécie de simplicidade ou repetição rítmica que evoca tanto espontaneidade quanto uma certa cadência ordenada.
Não foi, portanto, um acaso a escolha deste nome para a exposição patente na celebração do 30.º aniversário, da ZdB, em Lisboa. SINGSONG, uma ode ao fazer artístico como acto político e poético, sugere de cara a ideia de um coro ou um fluxo coletivo, onde vozes e linguagens artísticas diversas se entrelaçam em harmonia, mas sem perder a singularidade de cada elemento.Com curadoria de Filipa Correia de Sousa e Laura Gama Martins, esta mostra reúne o trabalho de 30 artistas contemporâneos que, através de diversas linguagens – pintura, escultura, têxtil, banda desenhada, instalação e performance –, propõem um coro visual e conceptual que desafia o mainstream e celebra a liberdade criativa.
O texto curatorial abre com um poema de Luiza Neto Jorge que evoca a profundidade do acto reflexivo, em sintonia com a proposta central da exposição: o presente como vértice, um instante de vertigem em que se desenham possibilidades futuras. A exposição é apresentada como um espaço de encontro e resistência, onde o fazer – manual e colectivo – reescreve e reimagina significados diante de uma contemporaneidade cada vez mais marcada pela arbitrariedade das estruturas sociais e culturais.
Na multiplicidade de expressões e suportes, a exposição assume-se como um espaço de diálogo entre o individual e o coletivo, reconhecendo a tensão entre a criação solitária e a construção de um coro harmónico. No conjunto das obras expostas, cada qual com a sua singularidade, partilha um desejo comum: cantar a liberdade de ser e fazer.
Ao entrar na galeria, o visitante é imerso em um espaço que transcende a noção tradicional de exposição. SINGSONG não é apenas uma coleção de obras, mas um ambiente vivo onde as peças dialogam entre si e com o público através dos dois andares da galeria. O carácter coletivo é visível tanto na diversidade dos meios apresentados quanto na sensibilidade comum que une os artistas. Há uma rejeição explícita à conformidade, e cada obra parece resistir à categorização fácil, convidando o visitante a questionar o que vê, ouve e sente.
As peças variam desde o delicado trabalho têxtil da teia de aranha feita com pionés, até instalações mais disruptivas como o painel monocromático «Miasma Maximus», desafiando o público a enxergar além do que se vê, como espetador ou intérprete tornando cada objeto ou performance numa nota deste coro expansivo.
Um dos pontos mais instigantes da exposição é a ideia de que «ter tempo para fazer, é política». Em tempos em que a criatividade é frequentemente secundarizada por uma sociedade obcecada pela produtividade imediata, vemos em SINGSONG uma proposta da arte como resistência, como um espaço de respiração e reconexão com a materialidade. É uma crítica ao consumismo cultural, que tende a priorizar produtos acabados em detrimento do processo criativo.
O coletivo de artistas convoca o público a refletir sobre questões como: Quem pode criar? Onde? E sob que condições? Essas perguntas, embora universais, adquirem uma urgência particular no contexto da arte contemporânea em Portugal, onde o acesso a espaços e recursos ainda é muitas vezes desigual. Num mundo onde «propósito, valor e significado» parecem cada vez mais frágeis, esta mostra celebra a arte como potência transformadora.