AV. VISCONDE DE VALMOR, 1, 2.º DRT. LISBOA
Publicado na edição de Maio/Junho 2025 da Revista Brotéria | Vol 200-5/6
Foi o silêncio que primeiro o atraiu. Depois, a luz. E, por fim, o modo como os objetos se alinhavam na geometria quase sacra daquela mesa diante da janela. O ano era 2009 e, no 2.º direito, n.º 1 da Avenida Visconde de Valmor, Daniel Blaufuks começou a observar o que não costuma ser observado. Ao modo de Georges Perec, que em 1974 se sentou numa esplanada da Place Saint-Sulpice para anotar o que ninguém anota, o fotógrafo, escritor e realizador lisboeta fez da sua cozinha um local de vigília. Perec chamou-lhe uma tentativa de esgotamento. Mas ambos, cada um na sua esfera, sabiam: nunca se esgota o que vive no tempo.
Durante sete anos, Blaufuks fotografou sempre a mesma cena. Uma mesa comum, coberta com uma toalha igualmente comum, diante de uma janela cujos vidros baços, donos de uma tessitura porosa, filtravam a luz com uma delicadeza que só a repetição permite notar. A cena era fixa, mas nunca igual. Por cima do tampo de madeira, pratos, livros, guardanapos. Vasos com flores, mapas, copos. E a cenografia destes arranjos mudava com o dia, com as estações, como se tivessem uma vida própria a ser explorada através da luz, a verdadeira protagonista. Os raios de sol ou a claridade de um dia nublado, a sombra da copa de uma árvore antes de ser abatida iam e vinham como um pensamento da passagem dos dias e a resiliência com a qual a simplicidade das obras de arte nos fulminam, atravessando aquela transparência com a solenidade de uma oração. Daniel Blaufuks, que fala de fotografia como quem fala da memória, viu nessa janela um vitral, que lhe lembrava uma catedral ou a cúpula da grande mesquita em Isfahan. A cozinha era o seu mundo. A mesa, ponto de ancoragem. E enquanto a realidade exterior continuava com as suas mortes e nascimentos, guerra e quedas de governo, o seu altar de madeira, persistia num tempo suspenso.
Georges Perrec, como Raymond Queneau, pertenceram ao Oulipo (Ouvroir de littérature potentielle), um grupo literário francês dedicado a explorar formas e restrições formais como motores da criação literária. Mas ao contrário de Queneau, que em Exercícios de Estilo reconta a mesma história 99 vezes, mudando-lhe apenas a forma, Blaufuks muda a luz, o enquadramento, o grão da película, a temperatura da cor. Porque não há repetíveis. Cada fotografia é uma variação, uma nova verdade sobre a mesma cena. A tentação de esgotar é, afinal, uma aceitação da inexauribilidade. A insistência torna-se forma de escuta.
Um dia bateram-lhe à porta. Queriam trocar a janela por outra. Mais moderna, ampla, mais eficiente. A porta foi fechada antes que a proposta se concluísse. Porque não se muda aquilo que se ama pelo que promete ser melhor. Há afectos que se colam à imperfeição.
Mas em 2025, Lisboa é outra. Internacionalizada pelo turismo de massa do pastel de nata e sardinhas em lata, gentrificada por um mercado imobiliário que se alimenta da memória alheia, a casa de Blaufuks entra nessa girândola. O valor do arrendamento ultrapassa os 3.800 euros. E ele, que ali viveu quase duas décadas, é obrigado a partir. Esta exposição é a sua despedida. De um lugar que tanto lhe deu, agora é ele que dá esta chance ao público. Habituado a trabalhar com a memória coletiva e privada, tem-se a impressão de que abrir portas de parte da sua vida íntima foi unir estes dois universos. Pelo chão, livros, brinquedos de um junger Daniel, ténis com milhas nas solas e poeira de todas as latitudes. Recortes de revistas do “seu pai”, Leonard Cohen, e de uma de tantas estrelas, Liz Taylor. Malas que ainda contêm a etiqueta do seu destino. «Levem-nos». É uma despedida.
E fotos. Paredes que são verdadeiros relicários de gerações dividem espaço com quadros de diferentes imagens do conjunto mesa-janela que parece ressoar por todo o espaço. Não como resultado de um acumulador atormentado, mas antes um colecionador dedicado de todas as tentativas impossíveis de alcançar esse esgotamento, defraudadas pela «ingratidão» do seu objeto de culto.
Tentou várias câmaras, lentes e formatos. Digital, analógico, instantâneo. Não conseguia ser bem sucedido na contenção da totalidade. Como Funes, o memorioso de Borges, que lembrava todos os pormenores de um dia e por isso era incapaz de viver, Blaufuks percebeu que nem uma vida inteira bastaria para ver tudo o que aquela cena continha. Cada tipo de imagem – o diapositivo, o negativo, o papel, o ecrã – dava-lhe uma versão parcial. E era nessa falha, nesse fracasso, que residia a beleza do gesto.
Há uns anos, habituado a ser um mineiro de histórias que chega até ao processo da ourivesaria das imagens que ela produz, Blaufuks encontrou, uma fotografia dos bisavós judeus alemães, também eles refugiados em Lisboa. A cidade que acolhia quem fugia dos pogroms, hoje aplica a purga aos seus moradores. Ambos os momentos representando o seu inverso. Na foto que deu origem à capa do livro Attempting Exhaustion da Akio Nagasawa Publishing, os seus antepassados sentados junto a uma janela. A mesma luz. A mesma espera. A mesma insistência contra o esquecimento. Porque o que se repete transforma. E o que é fotografado nunca é o mesmo.
Tal como em Perec, não se trata de fazer algo extraordinário, mas de ver o que está diante dos olhos. Ver o que ninguém vê. Ver, talvez, o que ninguém quer ver. A fotografia, nesse gesto, deixa de ser imagem. Passa a ser memória, gesto, relação. Passa a ser cuidado.
E é por isso este trabalho não se esgota. Porque não se trata da imagem, mas da insistência de olhar. De olhar para dentro. De olhar de novo. E de novo. E de novo.