GALERIA RATTON
Publicado na edição de Julho 2025 da Revista Brotéria | Vol 201-1
Fogo: um elemento primordial, que tanto destrói quanto purifica e transforma. É sob este signo que se acende a exposição na Galeria Ratton, Viagens entre Londres e Lisboa no Azulejo. Com curadoria de Ana Maria Viegas, somos convidados a imergir na azulejaria de dois nomes maiores da arte portuguesa: Paula Rego e Bartolomeu Cid dos Santos. Mais do que uma mostra, esta é a celebração de uma amizade profunda, nascida nas latitudes londrinas da Slade School of Arts, e de uma capacidade singular de, através da arte, erguer pontes que desafiam o tempo.
Numa galeria transbordante de entusiastas, testemunhámos uma conversa a três que se fez intimista. Hélder Macedo, «amigo próximo quer da Paula, quer do Bartolomeu», nas palavras de José Manuel dos Santos, abriu o coração. «Existe algo em comum entre as pessoas em exílio: a partilha de memórias de infância que não foram vividas em conjunto.» Esta constatação, tão simples quanto profunda, revelou o subsolo afetivo que unia os artistas.
A voz do laureado com o Prémio Vasco Graça Moura, transportou-nos para o universo de Cid dos Santos: «Ele via um mundo que tinha de ser composto, transformado. Daí, quando começou a fazer azulejo (…) vi que ele não só era capaz de desenhar a direito, como o fazia com regadores, com ácido sobre o mármore. Era um homem de muitos impossíveis.» Uma poética do labor, da experimentação incansável que viria a moldar as vastas superfícies azulejares que hoje pontuam o nosso quotidiano urbano.
Nesse dia tão carregado de significado, Hélder não hesitou em partilhar a memória da morte de Bartolomeu, despojando-a de qualquer sinistralidade: «Às cinco da manhã, a Fernanda [Maria Fernanda Oliveira Paixão dos Santos] telefona-me: “se queres ver o teu amigo, vem já.” Ela certamente fez o mesmo à Paula, porque nos encontrámos no hospital.» Foi então que a enfermeira partilhou uma sabedoria ancestral: “nós não sabemos como é que é [morrer], mas dizem que a última coisa que ‘vai’ é a capacidade de ouvir.” A Fernanda colocou-se de um lado da cama, eu do outro, e comecei a contar-lhe histórias de infância.» Naquelas memórias, surgiu a imagem de um menino de dez anos que se tornara Bartolomeu Marinheiro, a desenhar um miúdo de roupa às riscas. E enquanto a respiração de Bartolomeu se esvaía, Hélder testemunhou um ato de profunda comoção e absorção: «Quando olhei para o outro lado, vi a Paula a desenhar. A desenhar a morte de Bartolomeu. Foi um ato de absorção de amizade, de vida e — no fundo — uma homenagem profundamente comovente.»
Maria Filomena Molder ecoa a lembrança de Cid dos Santos, sublinhando o seu «trabalho sem fim, de investigação e experimentação constantes», visível na imponência dos murais nas estações de metro do Entrecampos e da Reboleira. O seu legado estende-se a outros lugares, como a Estação de Metropolitano de Nihombashi, em Tóquio, e a Estação de Comboio do Pragal.
A complexidade da sua técnica é um testemunho da sua dedicação: «Chegou-se à conclusão que um calcário muito especial, com o qual ele gravava, recebia o ácido e, logo a seguir, era regado com água, o que fazia surgir umas bolhas medonhas. Aquele trabalho, cada pedra, é resultado de uma paciência sem fim que é continuadamente exercitada contra tudo e contra todos. Os engenheiros do metro estavam a ficar um pouco enervados até ver tudo aparecer.» Um trabalho meticuloso, que exigiu tempo, mas que hoje, ironicamente, é ignorado pelos que esperam o metro, de costas para os murais. «As pessoas deveriam parar, olhar e ler. É quase uma fábula sobre o entendimento humano, sobre a nossa vida.» Uma exortação à contemplação num mundo de pressas.
Para Molder, Paula Rego sempre se deteve na face da dor. Assim, a pintura da morte do seu amigo não é meramente um registo, mas «um ato de autoproteção em relação à morte. A arte não cura a dor, porque a ferida reabre. Mas, por um momento, parece que sim.» Uma afirmação que ressoa com a complexidade da condição humana perante o sofrimento.
A célebre afirmação de Paula Rego, numa entrevista de 1991 ao The Independent of London — «My paintings are stories, but they are not narratives, in that they have no past and future» — é desdobrada por Molder, que refuta a simplificação redutora da pintura como mera narrativa. «De vez em quando, quando se quer diminuir o valor de um artista, diz-se que a pintura é narrativa. Mas a pintura não é narrativa! É pintura. Narração tem a ver com um ato de contar, que pode ser transformado em literatura. Os artistas pintam, esculpem, desenham, mas são sempre imagens, mesmo quando têm palavras como no painel de Fernão Mendes Pinto do Bartolomeu.» É um convite a olhar para a arte não como ilustração, mas como entidade autónoma, capaz de evocar e transcender.
E de histórias se faz a arte. O conto Fogo de António Tabucchi, com a sua intrínseca ambiguidade, parece talhado para a série Saltos, de Paula Rego: três painéis onde uma menina desafia as chamas, cada um densamente simbólico. Maria Filomena Molder acrescenta que «estes azulejos têm um toque demencial, mas de ligeireza, com humor em ambos.» Criaturas aterradoras emergem no Tejo — polvos, crocodilos; a menina que fantasia o amor de uma raposa; a “corajosa heroína” ladeada por um pelicano, emblema da ressurreição. Há, ainda, azulejos individuais: o do Sr. Roque, o mestre do fogo na cozedura dos azulejos, e o da Rosamunda a amamentar um cão. Uma coragem que brota da espontaneidade do artista liberto, mas também dedicado a expressar o indizível, como nestes azulejos. «Os artistas descobrem as metamorfoses que as coisas estão a pedir.»
Esta conversa é o prelúdio para uma exposição que nos devolve precisamente esse diálogo: entre os dois artistas, entre as cidades que os moldaram, entre modos distintos de perscrutar e imortalizar o mundo em superfícies duráveis. Nos azulejos de ambos, o tempo condensa-se. Paula Rego narra com a força visceral do corpo e da emoção; Cid dos Santos, com a subtileza da metáfora e do símbolo. Um confronto entre carne e enigma, entre a intensidade do gesto e a precisão do traço.
Na Galeria, as obras desdobram-se como postais enviados entre duas margens. A Salomé de Bartolomeu não dança apenas com a morte, mas com a própria iconografia europeia, numa reinvenção audaciosa, cheia de símbolos e mitologia. As figuras de Rego, por sua vez, observam-nos com uma intensidade que quase as faz emergir do painel, anelando tomar o lugar da narradora. Entre eles, um fio invisível de amizade, cumplicidade estética e respeito mútuo, que a exposição desvenda não pela comparação explícita, mas pela coexistência harmoniosa.
Nesta exposição, não estamos perante uma retrospetiva, nem uma homenagem. Estamos diante de uma correspondência. Feita de imagens. Uma correspondência sem remetente fixo, tecida entre Lisboa e Londres, entre duas mãos que moldaram o barro como quem escreve cartas ao futuro.
Paula Rego, com a sua honestidade visceral, dizia que a arte serve, acima de tudo, para contar o que nos custa dizer de outra forma. «I tell stories because otherwise I would cry», explicava. Contar histórias era, para ela, um modo de sobreviver à própria vida. No azulejo, essa vontade de narrar ganha espessura e permanência. A cerâmica não tolera o arrependimento: o que se grava, fica. O que se pinta, endurece. A história, quando passa pelo fogo, já não se apaga.
Bartolomeu Cid dos Santos, por sua vez, encarava o azulejo com um olhar mais histórico, quase arqueológico. Resistente, portátil, milenar, e simultaneamente português e universal. Em entrevistas e textos dispersos, falava deste material como «um palimpsesto ibérico», um lugar onde o tempo se sobrepõe e se recicla em novas camadas de sentido.
Ambos, cada um à sua maneira, restituíram ao azulejo uma potência que se julgava perdida: a de ser linguagem viva. Já não mero revestimento, mas expressão. Já não só património, mas vibrante presente.
No Portugal contemporâneo, o azulejo permanece um território de disputa. Demolido, esquecido, reaproveitado, romantizado. Encontra-se nas estações de metro e nos hotéis de luxo, nas igrejas barrocas e nas fachadas abandonadas. Contudo, no panorama da arte, são poucos os que, como Rego ou Cid dos Santos, o trataram com a solenidade de uma linguagem estética maior. A Galeria Ratton — que desde os anos 80 se dedica a esta reinvenção do azulejo — tem sido uma casa silenciosa desse gesto. Lugar de escuta.
Ao sair da exposição, somos levados a uma imagem final: a de uma carta nunca enviada, daquelas que ficam guardadas numa gaveta, confiando-se que um dia alguém as abrirá. É assim que estes painéis se revelam: missivas visuais entre artistas que nunca cessaram de viajar — entre países, entre meios, entre formas. Talvez a arte seja sempre isso: uma travessia sem mapa. E o azulejo, esse barro vítreo e frágil, uma forma de não nos perdermos no caminho.