A primeira infância não é apenas um tempo: é um território psíquico. Um lugar onde o mundo ainda não se separou de nós e onde os objetos, um som, um cheiro, um papel impresso, funcionam como extensões do corpo. É ali que se formam as primeiras alianças com o belo e com o estranho, com aquilo que nos salva e com aquilo que nos assombra. A infância é o laboratório da sensibilidade: tudo acontece pela primeira vez e, por isso mesmo, tudo se fixa com uma intensidade que nenhuma maturidade consegue reproduzir.
Freud escreveu que somos feitos de restos. Fragmentos de memórias precoces que regressam sob a forma de desejo, de gosto, de obsessão. Talvez seja isso que tento compreender quando revisito estas referências: não o passado em si, mas aquilo que nele ficou a pulsar.Outro dia, dei por mim a pensar por que gosto tanto de música clássica e, em particular, da Valse Brillante de Chopin. A resposta não veio sozinha. Vieram outras, em cascata, compondo uma cartografia afetiva desta vida ainda — felizmente — breve.
1. Looney Tunes
Eu deveria ter dois ou três anos. A minha irmã – geneticamente mais velha do que eu – tinha um pássaro vermelho com uma corda atrás que, ao ser puxada, tocava o Wiegenlied de Brahms. Um brinquedo de plástico, mas de um tempo em que o plástico tinha peso, resistência, quase dignidade, e dificilmente se quebrava nas mãos daquela menina colérica.
Associar animais à música clássica foi uma das ideias mais brilhantes que algum marketeer teve. Mas a música que verdadeiramente me marcou foi a Valse Brillante de Chopin, que surgia sempre que o Piu-Piu, ou Tweety, aparecia nos desenhos animados dos Looney Tunes, dentro da gaiola da velhota, baloiçando no seu poleiro. Havia ali uma complexidade sonora que, até hoje, me fascina.
Sou uma música frustrada. Mas talvez alcançar aquilo que se persegue retire um pouco do sabor às coisas. Como escreveu Fernando Pessoa, “viver é ser outro”. Aos sete anos, ganhei no Natal uma cassete que, entre outras peças, trazia a Dança Húngara n.º 5, também de Brahms. Eu queria tocá-las, compreendê-las, absorvê-las. Pertencer a cada uma delas.
Esse desejo levou-me ao piano. A minha mãe, química de formação, tocava nessa altura. Lembro-me das partituras, de a acompanhar em algumas aulas. Depois, o vento da nossa vida mudou de direção e aprender piano tornou-se um plano adiado até muito mais tarde. Mas a música clássica ficou ali, intacta, como uma âncora do que é belo e universal.
2. Maurício de Sousa
Eventualmente, onze em cada dez crianças brasileiras dirão da importância que a Turma da Mónica teve nas suas vidas. O toque do papel áspero, quase como um jornal para crianças; o cheiro da tinta gráfica e dos seus óleos inebriantes; as cores primárias, suficientes para compreender o que se lia e para mediar as eternas desavenças entre o Cebolinha e a Mónica.Mas o que aquelas histórias realmente me ensinaram foi sobre relações humanas e sobre a experiência da injustiça. Sofri muito bullying na escola. Pelo meu nome, pelo meu cabelo, pela minha condição social, pelo meu aspeto. Tudo servia de pretexto para eu ser “gozada”.
Não foi exatamente a resistência do Cebolinha às coelhadas do Sansão que me inspirou. Nem a caricatura da Mónica como “baixinha, dentuça e gorducha”. O que aprendi foi que existiam crianças – leia-se, pessoas – capazes de crueldade. Eu tive, de facto, um Sansão. E usei-o algumas vezes, mesmo sem ter um vestido vermelho para cada dia da semana.
3. Folhinha de São Paulo
Era um suplemento que vinha com o jornal Folha de S. Paulo. Não falemos do que o jornal se tornou hoje. Os meus pais nunca foram particularmente politizados — dificilmente o seriam, tendo crescido sob uma ditadura — e eu própria vivi a primeira infância nesse período abafado em tantos sentidos.
A redemocratização trouxe liberdade, claro, e uma inflação que chegou aos 900%. Ter comida em casa era uma conquista. O luxo supremo chamava-se Danoninho. Sempre houve livros por perto – o meu pai formara-se em Belas-Artes e a minha mãe fora professora aos dezasseis anos – mas eu sabia que O Menino Maluquinho não era exatamente para mim.
A Folhinha dava-me uma sensação de pertença a um lugar intelectual onde eu queria estar. Um espaço onde as crianças eram levadas a sério. Havia ali entrevistas, textos opinativos, cartas, pequenas reportagens. Eu acreditava que eram crianças que faziam aquele jornal. E essa crença alimentava a ilusão necessária de que poderíamos influenciar o mundo desde cedo.
Durante muito tempo pensei que o desejo de ser jornalista tivesse nascido com a invasão do Kuwait pelo Iraque, que me apresentou o Médio Oriente. Mas não. O verdadeiro impulso vinha da Folhinha. Do desejo de escrever ali. Depois mudei de cidade, perdi referências, e aquelas páginas passaram a falar diretamente comigo. Essa ficou para sempre.
4. Led Zeppelin
Até hoje, acredito que a boa música de referência se encerra algures nos anos 80, com os anos 60 e 70 como época de ouro. Quem me ensinou isso, sem o saber, foi o meu pai.
Ele era surdo de um ouvido e quando colocava o giro discos para funcionar, as paredes do prédio tremiam. Ouvia AC/DC, Rolling Stones, Beatles, REO Speedwagon, Scorpions, Elton John, Supertramp, Creedence Clearwater Revival… e Led Zeppelin. A potência do som acompanha-me desde sempre. Fora a música clássica e alguns músicos de jazz e blues, nenhuma banda se aproxima da poesia psicadélica aliada à bateria de John Bonham.
Sei-o porque, por mais vezes que ouça Stairway to Heaven, Black Dog ou Kashmir, há sempre uma emoção inaugural. Uma sensação de estreia.
Os meus filhos tocaram guitarra elétrica. Um deles, em particular, apaixonou-se. Fomos a concertos de rock que tenho a certeza de que o meu pai teria adorado, como o dos Iron Maiden. Anos mais tarde, quando esse meu filho quis estudar luteria, fui conhecer Andy Mason [“call me Andy”] o luthier de Jimmy Page. Em Mortágua. O mundo, por vezes, fecha círculos improváveis.
5. David Lynch
Foi por acaso que vi O Homem Elefante. Fiquei aterrorizada e fascinada com a possibilidade de alguém ser assim. Na altura, ainda não distinguia ficção de realidade. Para mim, tudo era verdade.
Nunca esqueci esse filme pela sensação de espanto que provocou. Algo absolutamente diferente, inesperado, desconcertante. Ferreira Gullar dizia que deixaria de escrever quando perdesse a capacidade de se admirar. A estranheza desse filme ficou como uma referência do que me é totalmente alheio e, talvez por isso mesmo, essencial.
Talvez escrever seja isto: regressar ao lugar onde ainda não sabíamos separar o mundo de nós próprios. Voltar às primeiras imagens, aos primeiros sons, não por nostalgia, mas porque ali se encontram as fundações invisíveis do que somos. A infância não explica nada, mas insinua tudo. É um arquivo imperfeito, feito de excessos e lacunas, de memórias que não pediram autorização para ficar.
Carrego estas referências como quem carrega talismãs discretos. Não me definem por completo, mas sustentam-me. São provas de que, muito cedo, algo em mim reconheceu o que era intenso, estranho, belo ou injusto. E esse reconhecimento, quase sempre silencioso, continua a orientar as minhas escolhas mesmo quando penso estar a decidir de forma racional.
Talvez seja isso que permanece da primeira infância: não as histórias que contamos sobre ela, mas a maneira como o corpo aprendeu a reagir ao mundo. Aquilo que ainda hoje nos faz parar, escutar, estremecer ou desejar ficar. Escrevo para não perder esse fio. Porque, enquanto for capaz de me surpreender, sei que ainda estou viva.